Mulheres do MPBA compartilham desafios das múltiplas jornadas

Profissionais competentes, mães primorosas, filhas zelosas, dedicadas administradoras do lar. Em síntese, mulheres. Mulheres que, diariamente, estão divididas entre o mundo do trabalho e o cuidado com familiares, com o lar e com tudo quanto se possa imaginar. Um cuidado que, no geral, envolve afeto e amor, mas que se traduz em um trabalho invisível, não remunerado e cansativo. “Sabe o equilibrista de pratos que precisa rodar todos para que nenhum deles caia?” É “mais ou menos assim” que se sente a promotora de Justiça Anna Karina Trennepohl. Essa também é a realidade de milhares de mulheres, que amanhaã, dia 8 de março, comemoram o ‘Dia Internacional da Mulher’. O relatório “Tempo de cuidar”, publicado pela Oxfam Internacional em 2020, registra que, todos os dias, mulheres e meninas dedicam 12,5 bilhões de horas ao trabalho de cuidado não remunerado. Isso corresponde a uma contribuição de pelo menos 10,8 trilhões de dólares por ano à economia global, valor que equivaleria a mais de três vezes o que é gerado pela indústria de tecnologia do mundo.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, em 2022, as mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Geralmente, são elas as responsáveis por tarefas como comparecer à reunião de pais da escola, fazer a atividade de casa com a criança, estar atenta à manutenção da casa, gerenciar o que precisa ser comprado, agendar e levar as crianças ou os idosos ao médico, administrar medicamentos e o lar. “Eu já tive ligação de escola durante sessão do Júri, filho machucado quando estava retornando da comarca, ligação de funcionária dizendo que faltou algo do mercado, cachorro passando mal e filho precisando ir ao médico”, revela Anna Karina Trennepohl. Ela acredita que a mulher já se acostumou a ser “multitask”, fazer várias coisas ao mesmo tempo, como trabalhar e lidar com o gerenciamento de filhos e casa, mas pondera que administrar tudo “é recompensador, mas também é preocupante para a saúde da mulher”.

A difícil tarefa de conciliar

A procuradora-geral de Justiça Adjunta Norma Cavalcanti, que começou a trabalhar aos 23 anos de idade e se casou aos 25, afirma que sempre conseguiu conciliar o trabalho com a vida pessoal. “É difícil, mas a mulher, pra vencer na vida, acaba tendo que enfrentar três turnos de trabalho”, registra ela, ressaltando que é possível agir como mãe, mulher e profissional. “Faz parte da minha vida cuidar de pessoas”, resume Norma Cavalcanti, definindo-se como uma mulher “lutadora e familiar”. A PGJ Adjunta lembra que trabalha muito, preocupa-se com os problemas da casa, da Instituição e de outras pessoas, e revela que, por muito tempo, relaxou com os cuidados que deveria ter consigo. Só recentemente começou a se cuidar e, para isso, conta com o auxílio da família, de colaboradores e amigos. Movida pela fé, ela disse que sempre ora e pede forças para cuidar de todos e ter coragem de lutar pelo que faz. “A sobrecarga existe, mas não me vejo parando de trabalhar”, complementa Norma Cavalcanti, frisando que “Deus cuida de mim para que eu possa cuidar de quem precisa de mim”. “Eu não perco tempo e nem quero perder a ousadia de tentar ser feliz todos os dias da vida”, assinala ela.

Para Anna Karina Trennepohl conciliar não é tarefa fácil. “Em nossa profissão, precisamos ter foco e estar atentos a tudo o que nos é dito. Muitas vezes, quando estamos precisando resolver alguma demanda extra trabalho isso pode ser gatilho para ansiedade e desconcentração. A mulher, com certeza, precisa ser esforçar mais para dar conta das várias demandas que lhe são postas. Por exemplo, tem a pauta de audiências e a escola manda o dia da reunião quando já tem audiências marcadas. Neste caso, é preciso compreensão de colegas para substituir na audiência, a fim de que esta não seja prejudicada, ou da família para que alguém compareça em seu lugar”, exemplifica a promotora de Justiça. Ela ressalta que essa tentativa de equilibrar as tarefas acontece com todas as mulheres que trabalham fora e contam ou não com uma rede de apoio, pois a administração de filhos e lar quase sempre fica sobre a responsabilidade das mulheres. Para dar conta, Anna Karina tenta delegar tudo que é possível. Também tenta se cuidar não abrindo mão da alimentação, exercícios quase que diários e tempo para ler e fazer coisas que gosta, em prol da saúde física e mental.

Já a assistente técnico-administrativa Cristiane Araújo, que tem duas filhas e uma mãe que necessita de cuidados especiais o tempo inteiro, revela que a sua rotina diária “não é fácil”. ‘A grande dificuldade hoje são os deslocamentos como consultas médicas familiar, reuniões externas de trabalho, mercado semanal, acompanhamento de atividades escolares, compras diversas”, diz ela, afirmando que, na maioria das vezes, sente-se “estressada e sobrecarregada”. O alívio vem com o auxílio do companheiro, que, segundo ela, “é parceiro em tudo” e com uma pessoa que ajuda a cuidar da mãe dela. Cristiane Araújo acredita que “ter uma rede de apoio mínima e aprender a delegar funções, acreditando que somos vulneráveis sim, nos ajuda a conciliar e manter o manter o humor para seguir o trabalho na rua e em casa”.

Escrito por: Cecom | Imprensa

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